
Quando finalmente a integração verdadeira acontece. Verdadeira porque necessária e não porque a menos dolorida ou a mais justa. É como se um cristal, uma cápsula ou algo assim se rompesse dentro de mim. O que antes incomodava, como uma pedra no sapato, passou a outra forma. De modo algum foi expulsa, pelo contrário.
Desde muito tempo venho carregando nas vísceras esse não-eu, esse pequeno monstro que cresceu na sombra do meu corpo. Ou melhor - e aqui levo a experiência à radicalidade - é como se o corpo conseguisse voltar à cena em sua completude. Até as partes feias, nojentas, desconhecidas, ignoradas vieram à tona. Desmoralizando-me para integrar todo meu ser.
Quando finalmente o rompimento acontece seu conteúdo se torna um bálsamo morno e perfumado. O que antes era fétido e repulsivo agora é aromático e reconciliador. Para ser menos poético, é como se eu tirasse uma casquinha de pipoca entre os dentes e a comesse. Antes incomodava porque estava deslocado de lugar. Tenho a certeza empírica, psicológica, corporificada daquela antiga verdade: O mal é o bem em lugar errado. A comida encerrada entre os dentes que volta ao aparelho digestivo e cumpre seu papel. Da mesma forma que o corpo o faz quando este pode sê-lo em sua plenitude.
Nada há de assustador. Dentro da cápsula-visceral apenas há você mesmo. Sinta seu aroma e se reconheça.
Quando finalmente a integração verdadeira acontece não trazemos nada de fora, apenas olhamos para o que tínhamos em nossos bolsos e nos alegramos. A sensação mais linda de todas talvez seja essa: ser pleno com o que se é. E isso implica em tomar fôlego na forma de um agradecimento para poder lutar por aquilo que desejamos ser. A luta por um ideal, herói, só acontece quando parte de uma raiz profunda em si mesmo. A montanha mais elevada mergulha sua profunda paz nas entranhas da Terra.
Não tenha medo do desconhecido, não seja avesso à sombra: apenas conheça e ilumine.
Hare Krishna, Hare Ram
Um comentário:
Me lembrou este poema aqui:
Cerca de Grandes Muros Quem te SonhasCerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'
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