E talvez a velhice e o futuro - caminhos envoltos em brumas, revoltos de brumas - possam ter algo de confortável. Confortável não pela matéria, que também é necessária, mas não fundamentalmente por isso. Um conforto do vivido, quero dizer. Talvez seja algo realmente confortante o acúmulo de memórias. Deve ter algo de muito bom em perceber que deixamos muito tempo para trás.
(Não sei. Sempre me preocupou o quanto de tempo teria pela frente, se é curto ou não. E pensar sobre essas incertezas infinitas é estranho mesmo. Estranho como não poderia deixar de ser. E pensá-las, racionalizá-las não irá fazer com que se tornem certas. Essa ciência é um engana-trouxas mesmo.)
Resolvi ver que as pessoas mais velhas tem uma calma, um conforto, uma plenitude talvez. Deve ser pelo tempo que conseguem carregar nas costas da sua memória. Porque a memória fica nas costas de alguma coisa ou a memória são as próprias costas da gente. E deve ser por isso que os velhinhos andam encurvados, com muita memória e muito tempo sendo carregados.
É lindo de ver - que me perdoem os moralistas - quando eles choram. Não sei. As vezes me parece que a tristeza que carregam nos olhos é uma tristeza sábia. Uma tristeza da certeza mesmo. Certos que estão que aquilo havia de acontecer e se resignam. Não é desespero, longe disso. Os jovens são feitos para o desespero. Sem nenhum tempo que pese nos ombros, ficam leves, tão leves que pulam de desespero.
Agora sei que um dia vou ter os pés pesados no chão, orgulhosos do chão que pisam. Porque os pés velhos quando se arrastam não é de fraqueza não. Pelo contrário, fazem muita força para carregar tantas e tantas memórias e ficam pesados.
Quero ter olhos tristes. Tristes e calmos quando envelhecer. Tristes por saber da vida e entender que ela é assim mesmo. Tristes de tanto lembrar. A tristeza é boa quando é calma. É a tristeza que borda e faz tricô. Cansados não! Quem cansa da vida, morre. Quero ter olhos triste e calmos... calmos como um por-do-sol... A alegria é burra e desesperada, tal como os jovens...
Foi assim que inventei que a vida não nos é dada quando nascemos, ela nos é presenteada enquanto vivemos. E quanto mais vivemos, mais vida temos para contar. Quero o vivido, as memórias, as histórias, o tempo. Essas coisas que a paciência nos ensina a admirar.
Hoje talvez tenha começado a entender o valor do tempo e talvez tenha cansado da juventude desesperada, alegre, burra.
Em torno dele tudo se faz mais caloroso, mais dourado, por assim dizer; sentimento e simpatia adquirem profundidade, ventos brandos de todo o tipo cruzam por cima dele. Ele tem quase a impressão de que pela primeira vez seus olhos se abrem para as coisas que estão próximas. Está perplexo e fica sentado em silêncio: onde estava ele, então? Essas coisas próximas e ainda mais próximas: como lhe parecem mudadas! Que penugem e que encanto elas adquiriram, entretanto! Ele lança para trás um olhar de reconhecimento por suas viagens, por sua dureza e por seu alheamento de si, por seus olhares ao longe e por seus vôos de pássaro nas frias alturas. Que bom não ter ficado como um carinhoso e tristonho preguiçoso sempre "em casa", sempre "ao lado de si"! Estava fora de si; não há nenhuma dúvida.
Só agora é que ele se vê a si próprio e que surpresa encontra nisso! Que arrepios nunca experimentados! Que felicidade mesmo no cansaço, na antiga doença, nas recaídas de convalescente!
(Nietzsche em "Humano, Demasiado Humano")