27 de janeiro de 2014

Sobre o agora e o de antes

Passei estes últimos anos imerso na vida acadêmica. E agora que me distanciei um pouquinho dela pude perceber algumas coisas. Dentre elas que o problema não está na universidade (ou na ciência) em si, mas na maneira como eu me relacionava com ela. Mas logo após o rompimento vem a radicalidade. Depois de queimar a razão na fogueira da experiência e da espontaneidade, a gente sente um incômodo.
Mas uma coisa está recorrente nos meus pensamentos e conversas: Nesse período de juventude, de militância e de hedonismo, me relacionei com as pessoas por afinidade ideológica e política. Mas fui percebendo que até entre os locões existe egoísmo; que nem todo artesão-de-rua pode ser chamado de hippie; que as pessoas não são seus rótulos; e essas coisas de gente menos jovem.
E a gente vai percebendo as surpresas (e ensinamentos) que o tempo carrega. Estou começando a perceber meu lugar no mundo e, acima de tudo, aceitá-lo. Porque a Universidade nos seduz com sua pretensa universalidade. Vivemos na bolha do capital cultural. Mas um excelente léxico não é muito útil para trabalhos precarizados.
Assim, penso que as afinidades morais e afetivas são muito melhores para se manter uma amizade. Com muitos não converso mais, de muitos outros gostaria de me reaproximar. Isso não quer dizer que aqueles foram menos amigos, tampouco que estes o são. Mas acho que é a força da mudança que não nos deixa de açoitar! O lance é que o amadurecimento e o crescer não é o fim, um estágio definitivo, mas o próprio caminhar.

3 de janeiro de 2014

Sobre o inexplicável

O sentimento Odara é a certeza de que tudo está em seu correto fluxo harmônico; é aceitar as curvas do caminho sem tentar desbravar atalhos desnecessários e perigosos; é a compreensão da grandeza do caminhar que em seu simples e fugaz ato pode levar o homem ao encontro dos outros e de si mesmo.
É a felicidade por ser exatamente quem se é. Por isso, não é algo que ganhamos do exterior. Na real, acho que é o oposto disto: chegamos a Odara quando reencontramos o sentido de estar vivo cá dentro de nós; quando olhamos para as estrelas com olhos abertos ao passado e ao futuro. Quando respeitamos o ritmo do mundo e das pessoas. Esta sabedoria nos faz ter fé no Universo, ter fé nos homens. E a fé é a resignação que me impulsiona a lutar pelo bem coletivo. Talvez esta seja a força que desloca o meu olhar do meu ego e faz engolir minhas dores para ouvir a dor dos outros.
Odara é o bom caminho. Laroyê! É aquele que acende a centelha divina dentro de nós. Não acredito em um Deus que um dia resolveu criar tudo e assim o fez. Penso mais num processo de eterno movimento, constante (re)criação. O caminhar do Universo nunca parou, e isto é divino. Sabe quando sacamos um monte de coisa e esta epifania nos faz mais feliz, mais pleno, mais vivo? Então, Odara!



Excrevi um negócio logo que soube da gravidez, mas não publiquei. Olha só, como já sabia que era Odara:

"Sobre as últimas coisas que vêm acontecendo.
É sobre a vida e a morte. Que, na verdade, são a mesma coisa. Não há eira nem beira, sem caminho, sem desvio nisso tudo. Ninguém escolhe a hora, se trata apenas de ter acolhida ou não.
Descobri o amor num teste de gravidez. Dizem que foi descuido, penso que foi o carinho, a vida e a caridade se expressando. É quase absurdo notar que foi na justa medida quando eu tinha me resolvido em partes integrais (é só ler as coisas de antes), quando decidi que seria feliz e fui atrás. Esse espírito resolveu se materializar no momento em que eu dei voz a mim mesmo (enquanto corpo e espírito). Ele é a trindade, é a resolução da ambiguidade, a síntese.
Filh@, você é a revolução de mim. Tanto no sentido de completo rompimento com o antigo a partir das bases já envelhecidas. Como no sentido da volta, da compleição do ciclo em torno do Astro-rei. É uma volta em torno de si mesmo. É o cumprimento de um ciclo que retorna para um ponto de origem que não é mais o mesmo. É como se eu voltasse para casa depois de uma longa viagem, tirasse os sapatos molhados e me recostasse mornamente na poltrona."

6 de outubro de 2013

O três, o dez e o vinte e um



Quando meu olhar fica meio perdido pra dentro, meu coração fica suspenso entre os vãos do peito ou quando procuro coisas que não existem é porque tenho que escrever. Sinto uma força vindo de dentro, parece um pintinho querendo romper a casca do ovo. Aí penso, organizo, dou sentido e isso se transforma em palavras, como essas.


Essas chegadas e partidas me fizeram pensar. Marli e Seo João se foram, nenéns estão desembarcando nesta terra. O que há de tão místico nisso tudo? Essas duas pontas da corda da vida que se juntam, mesmo opostas. Ou não tanto.
Penso em fluxo. Talvez a vida seja uma sala, dessas com chão de taco, pouco iluminada. O clarão vindo de fora só não inunda a sala pelas cortinas grossas da janela. Coisas empoeiradas. Mas há duas portas abertas, escancaradas. E pessoas caminham por entre os móveis. Existe um fluxo contínuo: pessoas entrando, outras saindo correndo; umas tímidas, outras correndo...

A vida gerada no ventre é quase absurda. Pense! Num momento de êxtase, melecas se espirraram e se juntaram. A centelha meio-divina meio-nojenta contém toda a história da espécie humana e a capacidade de fazer emergir em si um devir. Esse grãozinho de vida possui toda a lógica fértil da existência. É um ponto tecelão de futuros de si. Em qual sinapse é fundada a subjetividade? Oras, quando plantamos uma ínfima sementinha no chão ela vai agregando terra, vai incorporando matéria (cocô de minhoca, areia, umidade, fungos, nutrientes...) e vai se tornando uma planta que cresce e brota uma flor que exala perfume. É como se a terra sublimasse em perfume, saca!? É como se o arroz e feijão se tranfigurasse em pessoa. Da terra viemos e para a terra voltaremos. Atotô, meu pai!
É um ciclo de energias. Pulso de criação e destruição. O couro da zabumba não para.

A trindade resolve, sintetiza e impulsiona novas ambiguidades. É o ponto de confluência harmoniosa da dualidade, um respiro no meio da tensão dos opostos. Meio-termo que sustenta um novo começo, uma nova volta da espiral. É a fertilidade, a beleza e o presente se transformando em futuro. É o convite para a longa caminhada.
 O dez está completo, mas não estável. O equilíbrio é dinâmico. Se a roda parar ela cai; se o rio não transcorrer ele morre. A revolução é a rotação dentro da rotação. Todos rodamos: átomos, tempo, pessoas, planetas e galáxias. A imobilidade é uma ilusão (das mais cafajestes)! É o constante movimento que se sustenta. O único ponto estável do peão é seu centro (que quase não existe). 
Apenas o vinte e um está resoluto em si mesmo. Depois de toda a jornada, o herói enfim descansa. Vácuo absoluto, silêncio intransponível. Fim épico e sereno. Não há pensamento, nem palavras, nem ações. Só há o não-ser. Pleno, acabado, odara! É a boca fechada depois de pronunciar "Om". O breu é tão denso quanto frágil, qualquer fagulha pode explodir em diversidade. E o louco logo chegaria assobiando!


Tudo isso pra dizer: Seja bem-vindo, neném. Até logo, amigos!

A vida é mesmo absurda.

22 de agosto de 2013

Porque o susto pode ser bom



Quando finalmente a integração verdadeira acontece. Verdadeira porque necessária e não porque a menos dolorida ou a mais justa. É como se um cristal, uma cápsula ou algo assim se rompesse dentro de mim. O que antes incomodava, como uma pedra no sapato, passou a outra forma. De modo algum foi expulsa, pelo contrário.
Desde muito tempo venho carregando nas vísceras esse não-eu, esse pequeno monstro que cresceu na sombra do meu corpo. Ou melhor - e aqui levo a experiência à radicalidade - é como se o corpo conseguisse voltar à cena em sua completude. Até as partes feias, nojentas, desconhecidas, ignoradas vieram à tona. Desmoralizando-me para integrar todo meu ser.
Quando finalmente o rompimento acontece seu conteúdo se torna um bálsamo morno e perfumado. O que antes era fétido e repulsivo agora é aromático e reconciliador. Para ser menos poético, é como se eu tirasse uma casquinha de pipoca entre os dentes e a comesse. Antes incomodava porque estava deslocado de lugar. Tenho a certeza empírica, psicológica, corporificada daquela antiga verdade: O mal é o bem em lugar errado. A comida encerrada entre os dentes que volta ao aparelho digestivo e cumpre seu papel. Da mesma forma que o corpo o faz quando este pode sê-lo em sua plenitude.
Nada há de assustador. Dentro da cápsula-visceral apenas há você mesmo. Sinta seu aroma e se reconheça.


Quando finalmente a integração verdadeira acontece não trazemos nada de fora, apenas olhamos para o que tínhamos em nossos bolsos e nos alegramos. A sensação mais linda de todas talvez seja essa: ser pleno com o que se é. E isso implica em tomar fôlego na forma de um agradecimento para poder lutar por aquilo que desejamos ser. A luta por um ideal, herói, só acontece quando parte de uma raiz profunda em si mesmo. A montanha mais elevada mergulha sua profunda paz nas entranhas da Terra.

Não tenha medo do desconhecido, não seja avesso à sombra: apenas conheça e ilumine.


Hare Krishna, Hare Ram

9 de agosto de 2013

Kundalini cósmica


E hoje uma flor vermelha, encarnada, viva e pulsante desabrochou em mim. Bem abaixo do umbigo. Ela estava germinando há muito. Quando nasci, parece que sua semente já existia antes de mim em mim. Ela é tão antiga quanto minha consciência. Durante muitas vidas ela já nasceu e apodreceu em meu corpo/alma diversas vezes.
E hoje, novamente, ela explodiu em cores e perfume. Sempre soube que um dia isso aconteceria. Mas a semente foi sábia e emergiu em flor no momento certo. Quando a cabeça pôde segurar o baque da flor.
Abriu-me em possibilidades, aventuras e intensidades! Antes, na adolescência talvez, ela já tenha lançado botões, mas eles morreram, voltaram sob a forma de futuro-possível.
Agora, só agora pude perceber que sempre estive acompanhado. Se sou algo imcompreensível, meu deus é mais!!!

Foi fechar o olho, aumentar o som, dançar liberto para me despreocupar com o mundo que ela pulou do meu primeiro chakra. Foi um ploc singelo, mas notável. Foda-se! Quero ser eu, quero me permitir a existência. Antes dela desbrochar, meu sentido estava direcionado aos outros: o que vão pensar, o que esperam de mim, que papel devo cumprir. Agora não! Pelo menos é a intenção. Se não quiser que a flor murche devo cuidar dela. Regá-la todo dia com doses de insanidade, de horizontes possíveis. E sim, lógico, de praticidade. Porque não sou mais tão jovem para sonhar coisas impossíveis.

Vou cirandar! Dar as mãos aos amigos e sair rodando numa ciranda por aí. Pra onde? Não importa. pra onde for. Venha! Vamos ficar tontos, cair na grama e rir muito. Saia despreocupado, você pode conquistar o mundo dessa vez. Encorage-se, oxe menino. O mundo está aí pra ser vivido. A cabeça no céu, mas os pés no chão. Pensamento sem raiz voa e vai embora.
Quero respeitar quem sou e isso tenho certo.
Já basta de gestar. O Sol em Leão fez o parto que devia ser feito.

29 de julho de 2013

Vish... Treta de mil graus!

Só para que eu não esqueça de algumas relações de sentido produtivas.
E o interessante disso tudo é a surpresa que um evento, aparentemente negativo, pode suportar em si. E pronto! Encontramos algo bom no que era pra ser apenas ruim. Agradecemos com humildade ao algoz ao compreender sua função magistral (de mestre).
Enfim...



O Tetragrammaton por mim:
O pentagrama ou a estrela de cinco pontas é a base - ou o contexto - em que todos os signos estão impressos. São cinco letras A unidas pelo pé. A pira do número cinco diz respeito à humanidade em perfeição, o sentimento "odara". Podemos pensar no Homem Vitruviano, ou na harmonia do corpo humano. Me vem à mente o Renascimento e o "homem" enquanto medida de todas as coisas por ser considerado a criação divina mais acabada. É a união entre o Céu (três) com a Terra (dois), ou seja seria a solução para a dualidade criada a partir do movimento. Talvez a atuação criativa do que é divino.

Os olhos e o símbolo de Júpiter representam a figura de Deus na sua dimesão normativa, ética ou mesmo conceitual. Uma vez que o tema da vigilância (alter-ego) intermitente é notável nesse símbolo; junto a isso figura Júpiter/Zeus que é o arquétipo de um deus paternal (ou mesmo viril), ligado à noção de elevação moral e ao conceito ocidental de civilização. Seria o tipo ideal de humanidade greco-romana. Os grandes complexos simbólicos (filosofia, religião, ciência, arte) são constituintes desse contexto formando o paradigma de humanidade ideal (o arcano quatro do tarô).

Marte nos braços da estrela é o impulso criador/destruidor. Aquele fogo do desejo que nos movimenta que põe em ação nossas ideias. O aspecto masculino em si, aquele que fecunda e que peleja. É o movimento assertivo, agressivo, invasor e explosivo. Representa o impulso que rompe obstáculos para se realizar. São os momentos desprovidos de racionalidade ou de harmonia. Articulado ao Áries astrológico, deus da guerra e da agricultura, que inicia qualquer movimento mas que não o sustenta. É o fogo da explosão criadora (big-bang), pura energia.

Saturno nas pontas inferiores. Aquele planeta tido por muito tempo como sinal de mau-agouro. Porém o entendo como o doloroso processo de amadurecimento. O símbolo representa a sabedoria adquirida através de longos anos de estudos (Cronos), de progresso moral e técnico. É a experiência de aprender com nossas vivências, é o conhecimento que os anciões/mestres/gurus carregam. Pode ser articulado ao Eremita (arcano nove do tarô). São os conhecimentos esotéricos, herméticos, mágicos dominados apenas pelos iniciados. Esse símbolo lida com as dimensões mais densas e imutáveis da criação. Talvez próximo a Obaluaiê pelo ar de mistério, aridez, castração e morte que envolve esse arquétipo.

O Sol e a Lua são os aspectos dúbios e complementares da criação. Esses dois luminares celestes reduzem em si talvez o reconhecimento mais fundamental na vida humana: a diferença entre dia e noite. E desdobra de si infinitas dualidades: homem/mulher, ativo/passivo, claro/escuro, cultura/natureza, quente/frio... e por aí vai... Simbolicamente esses pares de opostos são complementares e, portanto, equivalentes. Porém, na prática é evidente que a sociedade machista em que vivemos privilegia um dos pólos. O interessante, no entanto, é notar a existência do masculino e do feminino como partes indispensáveis de uma unidade precedente. Assim, o Sol e a Lua, nesse contexto, representam o eterno movimento de divisão, união e criação (nova divisão).

Mercúrio e Vênus são planetas derivados da "tensão" entre o Sol e a Lua. Sendo que Mercúrio representa o poder dinâmico externalizador da dimensão solar/masculina da criação. É aquele que domina intelectualmente as forças da natureza e o faz em favor de seu próprio interesse. Ligado à racionalidade, ao ego, às trocas (de bens e de saberes). É o Mago do tarô. Por outro lado, Vênus simboliza a força receptiva ou introspectiva da dimensão lunar/feminina da criação. Resume tudo que é belo e harmônico no mundo. É a sensualidade e aquilo que envolve o mundo dos sentidos físicos (visão, paladar, audição, olfato e tato) e tudo aquilo que é agradável a estes. Na união desses dois aspectos temos o equilíbrio e a justa medida das coisas. A partir disso emerge o Caduceu de Hermes, que sugere a transformação, sublimação ou transcendência pela união dos opostos. É a força vital (ou libidinal) que parte da base da coluna e explode no alto da cabeça, percorrendo e ativando todos os chacras.

Alfa e Ômega representando o início e o fim do mundo

O Cálice (água), a Espada (ar), o Bastão (fogo) e a Moeda (terra) representam os quatro elementos. A partir disso podemos expandir o sentido com analogias: água-sentimento, ar-pensamento, fogo-intuição, terra-percepção. Essa comparação foi proposta por Carl Jung e nesse site está bem da hora Essa interpretação difere das que encontrei pela internet (link), mas penso que assim está coerente aos naipes do baralho do tarô e pra mim faz mais sentido, foda-se.

Além desses, existem outros símbolos no Tetragrammatom, mas não vou falar daquilo que não conheço.

6 de julho de 2013

A Carruagem

Pego um livro de poesia qualquer, abro-o mecanicamente. A página aberta agarrou exatamente o momento em que eu estava vivendo! É quase absurdo ou caótico como eventos significativos pipocam diante de meus olhos. Ao decidir que iria escutar aquele sopro extrafísico (intuição) as coisas começaram a tomar uma congruência notável. "Quando o trabalhador está pronto, o serviço aparece". Difícil de acreditar, porém no momento em que decido voltar meus olhos para as coisas da alma - do inconsciente, do oculto, do extrasensorial, do metafísico... enfim, dos processos energéticos de longa duração e extrema sutileza - livros, pessoas, eventos e fenômenos com essa tonalidade pulam na minha cara. É como se alguém respirasse aliviado ao me ver caminhando nessa trilha e me presenteasse com uma bicicleta para viajar com mais tranquilidade. Sei lá...
Por outro lado, a partir da decisão de colocar a lente do místico nos olhos, fica evidente que o mundo vai assim parecer. É como se escolhêssemos - mais ou menos autonomamente - como interpretar, dar sentido, a uma realidade aparentemente caótica e carente de sentido.

Na real, eu fico pendulando entre essas duas perspectivas: a do nativo apaixonado e a do relativista niilista. Muitas vezes misturando os dois pólos. E ainda fico intrigado como a água e o óleo não se misturam, poxa! Mas aí seria regredir. Pessoas com signo solar que apresenta duplicidade (gêmeos, libra, escorpião, sagitário, capricórnio) tem que parar de desejar a unicidade. Não, o máximo que conseguiremos fazer - e isso é o meu ideal - é complementar as duas polaridades. Ou seja, aceitar a nossa ambivalência e saber como um lado nutre e carrega o outro. Seria simples se não se tratasse de ser humano.
Só sei que o Saturno passando por Escorpião está sendo como um terremoto em alto-mar: todos sentem o tremor, a mudança, mas ele não é evidente e ninguém sabe definir realmente da onde vem.
A poesia que me agarrou é:


AREIA DA PRAIA

Estou farto de juntar idéias tensas,
trancá-las em rimas e formatos
e ver palavras outras, leves,
sem compromissos, omissas, à toa,
soltas ao vento...

Estou cansado de juntar alimento
para todo o ano
e deixar que a primavera e o verão
se percam em mar, sol e flores,
enquanto eu bato prego
e fecho trancas do meu silo.

Estou farto de querer ser voz e razão
e defender ideais,
como o faminto defende um velho pão.
Estou saindo de cena,
fechando para balanço.
Hoje, estou seco, sem eco.
Estou farto de fome,
de escrever na areia da praia...
(Célio Pires de Araújo)

13 de junho de 2013

Confio, entrego, aceito, agradeço

"Quando a personalidade resiste, ou insiste em fazer escolhas que não estão em alinhamento com os ditames da alma, as nossas qualidades superiores permanecem adormecidas, esquecidas ou impedidas de expressão"

É estranho, mas sempre ouço um sopro no meu cangote me dizendo que o caminho certo é este e não aquele. Apesar disso, quase nunca escuto essa consciência. Apenas aceito seu conselho e continuo a fazer aquilo que EU penso ser o mais confortável. Mas será que esses meus olhos limitados pela matéria conseguem realmente escolher corretamente? Por que não aceito o conselho da intuição?
Talvez seja muito difícil tomar uma decisão radical e sair da inércia moral e física. Mas sei, com certeza sei, que o sopro não falha nunca. Sei que essa consciência transcende o tempo e o espaço e tem melhores parâmetros de decisão que eu. Mesmo acreditando em sua existência, mesmo confiando em suas palavras, mesmo aceitando humildemente minha inabilidade de conduzir minha decisões... mesmo assim insisto em acreditar nesse indivíduo autônomo e interiorizado que é senhor de si e de seu destino.
Então sofro! Sofro porque sei que estou escolhendo o caminho mais doloroso; porque sei que vou ter que trilhar novamente esse mesmo caminho. Sofro porque antes de escalar logo essa montanha, fico dando voltas em sua base, mesmo que ali só haja pântanos lamacentos sem vida.
O sopro volta caridosamente todos os dias a me indicar o melhor caminho, mas resisto e insisto em não seguir suas sugestões. Adoeço e, quem sabe enfermo, meio sem razão, meio febril e delirante, consiga que a luz interior me guie realmente, já que a razão individualista, nessas horas, perde sua força.
Então que eu sofra! Sofra mesmo! Que eu caia porque é só do chão que enxergo o melhor caminho ! Que eu respire o pó da estrada e quando inebriado por meu próprio carma consiga divisar meus erros e recomeçar intuitivamente a caminhar.
Até quando irei negar ouvidos àquele que só me auxilia? Humanidade burra!

3 de fevereiro de 2013

Será mesmo? (2)



Na humildade, queiram me perdoar se estou ficando piegas, clichê, pedante, demagogo e cheio de consoantes. Mas é que isso faz parte de uma alegria tão grande que não cabe dentro de uma pessoa só. Afinal, tenho Marte e Mercúrio na 1ª casa em conjunção. Só consigo pensar se puder falar impulsivamente de coisas que me dizem respeito. Preciso aprender sobre o silêncio ainda! 



Me perguntei um dia se realmente eu não teria vindo de outro lugar que não daqui mesmo. as a resposta... essa certeza infalível não achei não. Pudera! Pra que ter certeza das coisas, oxe menino? Deixe a insanidade brincar nas fronteiras do cotidiano e veja que ela não passa de uma coisinha boba. O que interessa mesmo é ter a dúvida. Trazer em si o preto e o branco, o bom e o mau, a luz e a escuridão. Porque é isso que me faz. Só há verdade absoluta é na calunga. Enquanto estiver vivo - e isso é a prova de estar vivo - a dualidade vai cambalear no meu peito.

E essa resposta não estava bem nas minhas fuças? Há muito já conhecia a solução para as minhas dúvidas. Só não a reconhecia.

Não! Não somos desse mundo mesmo. Afinal, nem esse mundo é desse mundo. Se o planeta do qual falo é consituído de algo externo e anterior a ele, então o aqui e o além se misturam substancialmente. Donde vem o ar que você respira? Donde vem o chão que pisa? A luz que te alumeia não é de perto não, moço.

Mas, das vez, tudo isso é só uma bobajada descabida. E, finalmente, to aprendendo a achar a beleza no não saber. Que Hermes me dê passagem para eu me aproximar daquele asteróide engraçado com cara de centauro, o Quíron. E que o meu luzeiro consiga finalmente começar sua trágica viagem de volta para si. Porque a fé da qual me valho diz respeito ao sacrifício. Mas não confunda. Sacrifício não é nada de forçoso ou penoso. Pelo contrário, ele vem de dentro. É a negação daquilo que acho que deva ser em favor do desconhecido. No fim, é a entrega de si ao Outro (aquele outro mais metafísico, abstrato e cósmico). E que isso me ensine sobre a entrega àquele outro mais conhecido (amigos, família, irmãos de humanidade).

17 de dezembro de 2012

Laroyê Exu

Aquele que põe o mundo em movimento, que é o inverso do seu transverso. Aquele que engana para poder ensinar, que confunde para nos fazer ver o que era óbvio. Salve os compadres e as comadres. Agradeço de mais pela sua comapanhia e caridade.



"Sou Exu,

Bom para quem é bom, mal para quem é mal,
Darei a você tudo o que me pede, Não somente porque eu posso;
Mas pra que você entenda o valor de suas decisões.
Trago uma cruz tatuada no peito, não por devoção ao seu salvador;
Mas pra lhe mostrar que o destino é uma grande encruzilhada
E que só depende de ti o caminho que ira escolher.
A sombra é minha morada, não porque me escondo da luz;
Pois é da penumbra que vejo seu lado obscuro, e não deixo que ele apodere-se de você
Minhas gargalhadas são para lhe mostrar, que passas a vida envolto de:
Luxúria, Cobiça, Vaidade, Mentiras...
Desse lado isso de nada valerá, verás que esses vícios se tornarão pesados grilhões
e que terá de arrastá-los nesse deserto árido,
Sem tempo definido...
Talvez pela eternidade.

Seu mundo é uma grande ilusão, aqui farei você enxergar com os olhos do espírito,
O que você não quis ver com os olhos da matéria.
Só existe uma Lei, criada antes do tempo,
Não fui Eu quem a criou, Eu apenas a observo...
Você e somente Você, é o responsavel pelos seus atos.
Sou o Guardião, O Juiz, O Executor, O Lado Esquerdo, o Seu Espelho...

Sou Exu."