25 de setembro de 2010

Sobre estar só

Está calor, daqueles que ficam preso na garganta como uma espinha de peixe. Chego em casa, jogo os sapatos para o lado, alargo as calças e descarrego-me dos papéis sociais. Pronto estou só. Livre! E é tão bom tomar um gole de água gelada. Refrescante e solitária. Mato a sede de mim mesmo. Finalmente posso não falar, posso prestar atenção naquilo que gostaria de dizer realmente.
Essa solidão dá o prazer de tecer o meu eu, o meu corpo, escolher os meus devires e ser, completamente finalmente, silêncio. Não quero ser silenciado, quero escolher o silêncio.

A solidão me parece tão sedutora e não porque seja ela uma fuga, represente um desgosto ou porque carregue qualquer sentimento niilista das coisas. Prefiro pensar o estar solitário mais como uma preparação. Um aprendizado, talvez. A solidão é um deleite de lambuzar os lábios.
Não sei porque nesses tempos de individualismo temos que ser individualistas em conjunto.

É claro que é importante saber apreciar também o banquete, o compartilhar. É bom perceber a evidência do nosso eu-relacional. O rizoma é realmente muito bonito, apesar de não saber onde a teia apresenta-se no seu particular, o elementar sabe de sua irredutibilidade. Entre para o jogo do caleidoscópio. Mas não esqueça do colorido e dos perfumes múltiplos.

15 de setembro de 2010

Para momentos difíceis

Toda vez que estiver em crise com a antropologia espero ler isso aqui: Uma ‘antropologia’ que jamais ultrapasse os limiares de suas próprias convenções, que desdenhe investir sua imaginação num mundo de experiência, sempre haverá de permanecer mais um ideologia que uma ciência. (Roy Wagner, A Invenção da Cultura, 2010)

Eu realmente espero, do fundo da minha esperança infantil, ser feliz na carreira acadêmica. Isso também inclui ser bem-sucedido, ter certo prestígio (pra poder falar qualquer absurdo e ser chamado de excêntrico e não de idiota). Quero, de verdade, ser feliz dentro da universidade. Sei que isso as vezes me parece tão irreal quanto inútil.
Isso deve ser o medo bem classe-média que eu tenho de ser mutilado pela exploração capitalista. Não, não quero ser alienado do produto do meu trabalho. No mínimo um artista/artesão, pequeno agricultor.
Ou seja: ou quero ser um intelectual rato de academia ou um jeca filho da terra. Posso ser os dois e aí sim serei a pessoa mais feliz desse mundão véio sem porteira!