
Quando meu olhar fica meio perdido pra dentro, meu coração fica suspenso entre os vãos do peito ou quando procuro coisas que não existem é porque tenho que escrever. Sinto uma força vindo de dentro, parece um pintinho querendo romper a casca do ovo. Aí penso, organizo, dou sentido e isso se transforma em palavras, como essas.
Essas chegadas e partidas me fizeram pensar. Marli e Seo João se foram, nenéns estão desembarcando nesta terra. O que há de tão místico nisso tudo? Essas duas pontas da corda da vida que se juntam, mesmo opostas. Ou não tanto.
Penso em fluxo. Talvez a vida seja uma sala, dessas com chão de taco, pouco iluminada. O clarão vindo de fora só não inunda a sala pelas cortinas grossas da janela. Coisas empoeiradas. Mas há duas portas abertas, escancaradas. E pessoas caminham por entre os móveis. Existe um fluxo contínuo: pessoas entrando, outras saindo correndo; umas tímidas, outras correndo...
A vida gerada no ventre é quase absurda. Pense! Num momento de êxtase, melecas se espirraram e se juntaram. A centelha meio-divina meio-nojenta contém toda a história da espécie humana e a capacidade de fazer emergir em si um devir. Esse grãozinho de vida possui toda a lógica fértil da existência. É um ponto tecelão de futuros de si. Em qual sinapse é fundada a subjetividade? Oras, quando plantamos uma ínfima sementinha no chão ela vai agregando terra, vai incorporando matéria (cocô de minhoca, areia, umidade, fungos, nutrientes...) e vai se tornando uma planta que cresce e brota uma flor que exala perfume. É como se a terra sublimasse em perfume, saca!? É como se o arroz e feijão se tranfigurasse em pessoa. Da terra viemos e para a terra voltaremos. Atotô, meu pai!
É um ciclo de energias. Pulso de criação e destruição. O couro da zabumba não para.
A trindade resolve, sintetiza e impulsiona novas ambiguidades. É o ponto de confluência harmoniosa da dualidade, um respiro no meio da tensão dos opostos. Meio-termo que sustenta um novo começo, uma nova volta da espiral. É a fertilidade, a beleza e o presente se transformando em futuro. É o convite para a longa caminhada.
O dez está completo, mas não estável. O equilíbrio é dinâmico. Se a roda parar ela cai; se o rio não transcorrer ele morre. A revolução é a rotação dentro da rotação. Todos rodamos: átomos, tempo, pessoas, planetas e galáxias. A imobilidade é uma ilusão (das mais cafajestes)! É o constante movimento que se sustenta. O único ponto estável do peão é seu centro (que quase não existe).
Apenas o vinte e um está resoluto em si mesmo. Depois de toda a jornada, o herói enfim descansa. Vácuo absoluto, silêncio intransponível. Fim épico e sereno. Não há pensamento, nem palavras, nem ações. Só há o não-ser. Pleno, acabado, odara! É a boca fechada depois de pronunciar "Om". O breu é tão denso quanto frágil, qualquer fagulha pode explodir em diversidade. E o louco logo chegaria assobiando!
Tudo isso pra dizer: Seja bem-vindo, neném. Até logo, amigos!
A vida é mesmo absurda.


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