Pego um livro de poesia qualquer, abro-o mecanicamente. A página aberta agarrou exatamente o momento em que eu estava vivendo! É quase absurdo ou caótico como eventos significativos pipocam diante de meus olhos. Ao decidir que iria escutar aquele sopro extrafísico (intuição) as coisas começaram a tomar uma congruência notável. "Quando o trabalhador está pronto, o serviço aparece". Difícil de acreditar, porém no momento em que decido voltar meus olhos para as coisas da alma - do inconsciente, do oculto, do extrasensorial, do metafísico... enfim, dos processos energéticos de longa duração e extrema sutileza - livros, pessoas, eventos e fenômenos com essa tonalidade pulam na minha cara. É como se alguém respirasse aliviado ao me ver caminhando nessa trilha e me presenteasse com uma bicicleta para viajar com mais tranquilidade. Sei lá...
Por outro lado, a partir da decisão de colocar a lente do místico nos olhos, fica evidente que o mundo vai assim parecer. É como se escolhêssemos - mais ou menos autonomamente - como interpretar, dar sentido, a uma realidade aparentemente caótica e carente de sentido.
Na real, eu fico pendulando entre essas duas perspectivas: a do nativo apaixonado e a do relativista niilista. Muitas vezes misturando os dois pólos. E ainda fico intrigado como a água e o óleo não se misturam, poxa! Mas aí seria regredir. Pessoas com signo solar que apresenta duplicidade (gêmeos, libra, escorpião, sagitário, capricórnio) tem que parar de desejar a unicidade. Não, o máximo que conseguiremos fazer - e isso é o meu ideal - é complementar as duas polaridades. Ou seja, aceitar a nossa ambivalência e saber como um lado nutre e carrega o outro. Seria simples se não se tratasse de ser humano.
Só sei que o Saturno passando por Escorpião está sendo como um terremoto em alto-mar: todos sentem o tremor, a mudança, mas ele não é evidente e ninguém sabe definir realmente da onde vem.
A poesia que me agarrou é:
AREIA DA PRAIA
Estou farto de juntar idéias tensas,
trancá-las em rimas e formatos
e ver palavras outras, leves,
sem compromissos, omissas, à toa,
soltas ao vento...
Estou cansado de juntar alimento
para todo o ano
e deixar que a primavera e o verão
se percam em mar, sol e flores,
enquanto eu bato prego
e fecho trancas do meu silo.
Estou farto de querer ser voz e razão
e defender ideais,
como o faminto defende um velho pão.
Estou saindo de cena,
fechando para balanço.
Hoje, estou seco, sem eco.
Estou farto de fome,
de escrever na areia da praia...
(Célio Pires de Araújo)

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