E começou com uma picada de formiga. Como se eu tivesse engolido uma por engano e ela se pusesse a caminhar e dar mordiscadas em minha barriga. Primeiro as patinhas me deram pequeníssimos calafrios, logo senti uma picada e depois outra e outra mais forte. Depois um suspiro mais profundo fez com que o ar gelasse a boca do estômago. A língua travou os pensamentos e a respiração emperrou no fundo do pulmão. A partir daí tive certeza que algo ruim estava acontecendo por cima dos olhos e perto da nuca. A expiração não esvaziou o peito, só o carregou de preocupações que nem sei quais. A barriga, agora cheia de bichinhos querendo romper a pele do abdomen, começou a coçar por dentro. É como se um fósforo incendiasse com uma chama gélida e pontiaguda. As angústias, feito cavalos, levaram para longe os pensamento e o ouvido ficou livre para ouvir sussurros no cangote. O cenário se montou para que o desassossego se generalizasse e aumentasse o grau de miopia do meu coração frenético.
Como expulsar algo tão grande e disperso que chega a fazer parte de quem sou? Como acalmar o bicho que mora na minha barriga se ele sou eu? E se o que eu quero matar não é o que está me mantendo vivo?
Pronto, as picadas de formiga cresceram tanto que agora eu mesmo me aferroo.
Mais um cigarro!
Mais um cigarro!
Só mais um cigarro!
Dou uma tragada e o fogo gelado se apaga....
Mais outra e a garganta fica cheia de areia...
Na última tragada engulo esse barro amargo que vai ser ninho para mais formigas.
O tabaco já não basta para afrouxar o aperto da cobra em meu estômago. Aí é como se eu tivesse o tempo todo querendo espirrar sem conseguir. Talvez um dia descubra o nome dessa doença. O difícil vai ser explicar pro doutor que ela começa bem atrás do umbigo, sobe até os fundos do peito, arrepia a nuca e faz logo os dedos tatearem por um isqueiro.