Às vezes me pergunto mesmo se sou desse planeta.
Talvez uma nave espacial em forma de luz passou perto da Terra em uma de suas viagens transdimensionais e um de seus tripulantes, o mais distraído, caiu para fora da nave em uma de suas curvas fechadas.
Ele era de um povo colorido, pacífico e sonhador, que passavam sua existência toda tocando músicas, fazendo poesias, sonhando. Eram seres sem sexo, nem gênero, não tinham inventado roupas nem tabus, muito menos família. Seres que sempre carregavam flores astrais em seus longos e enrolados cabelos. Criaturas que gostavam de beber e dançar, acender fogueiras em noites frias e se banhar nos riachos calmos do Tempo em dias de calor. Não conheciam a prisão da matéria e entoavam o Bem e a Paz para todas as formas de vida do Universo. Eram amorais.
Não eram dados ao calendário, nem sabiam o que era a verdade ou a mentira, simplesmente acreditava em tudo o que lhes contavam. E por isso, tudo que ouviam se tornava existência, processo, fluxo. A memória desse povo era curta, mas o amor infinito. Quando tinham algum raro desentendimento, ficavam um pouco mais pálidos e reservados, mas as palavras sempre doces perfumavam os pensamentos novamente e voltavam a se pirulitar pelo cosmo.
Nos dias de festa, que era sempre que alguém imaginava que fosse, fumavam pequenos cachimbos e a cada baforada nascia uma estrela, uma lembrança, uma utopia.
Uma nação que a nossos olhos terrenos se parece com uma fagulha, um pulso de energia brilhante que quase não existe. O lar deles é tudo e é nada, não tem sentimento de posse. Compartilham todas as experiências e memórias.
Mas ele caiu! Se desbarrancou por sorte ou azar aqui na Terra. Puxado pela força compulsiva do nosso planeta, energias, pensamentos e coisas iam se grudando nele. Tantas e tantas eram as desilusões que se prenderam durante a sua queda que já começava a esquecer de seu povo, de sua história. Nunca teve tanta memória mesmo. Foi como um cometa transparente que despencou de lá de cima. Caiu e ganhou um corpo e ganhou também as dores da Terra. Envolto na energia material ficava quase impossível saber quem era. Estava nu, tinha sexo, tinha desejos e egoísmos. Seus sete grandes centros energéticos, acostumados com as infinitudes do Universo, se fecharam e na sua nova cabeça surgiram sete buracos, todos ávidos por matéria, por saciedade, por coisas. Teve fome, frio e solidão. Conheceu a agressão típica das verdades, foi violentado pelo conhecimento, estuprado pela moral.
Não estava acosutmado com nada disso, mas também não sabia mais viver de outro modo. Aos poucos foi vivendo como vivem os daqui, aos poucos foi encontrando seres parecidos com o seu antigo povo. Será que também tinham caído? Não sabia, não lembrava. Agora era um terráqueo. E não tinha dança, não tinha festa, nem vício nenhum que pudesse o satisfazer. Quanto mais comia, mais bebia e mais fumava, mas ficava sedento! Só às vezes, cansado de ser um corpo, depois de um longo dia de existência material, quando olhava para as estrelas sozinho vislumbrava uma quase-lembrança de seu povo, mas era por um quase-instante. E tudo lhe parecia apenas uma insanidade de sua mente, agora acostumada com a razão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário