10 de janeiro de 2012

Manifesto do preto no branco

Nasci branco! Cheguei a esse mundo com a pele bem rosada de tanto choro, cabelos negros e escorridos na cara. Cresci branco. No meio de uma classe média emergente fui adquirindo todos os traços de uma criança branca saudável. Minha família fez questão, mesmo que sem saber, de me ensinar todos os preconceitos que são esperados de um cidadão de bem. Homofobias, racismos, machismos foram entoados repetidamente durante minha infância.
O projeto de meus pais deu tanto certo que consegui entrar numa universidade pública: o sonho da classe média emergente, intelectualizar-se, igualar-se financeira e culturalmente à classe alta. Proletários da classe dirigente tentando se parecer o máximo possível com burgueses.
Só não contavam que toda aquela educação de qualidade oferecida - o ensino das melhores escolas particulares (pagas com muito arrocho) - iria fazer com que eu escolhesse um curso universitário de comunista, de hippies, de vagabundos, de maconheiros. Na universidade virei preto! Nasci preto! Minha pele escureceu, meu cabelo se enrolou, sambei. Tenho os pés negros no chão do terreiro do candomblé, umbanda, jongo, umbigada, forró, maracatu!
O sangue que corre nas minhas veias não é mais aquele vindo da Itália durante a terceira leva de imigrantes. Não! Faço questão de não lembrar disso. O que está marcado na minha carne é o suor do povo preto que veio açoitado da África. Um povo tão belo que apesar de 400 anos de políticas de desumanização consegue lembrar e cantar suas histórias, mitos, fé, danças!
Sou preto! Meu peito explode ao som dos atabaques, sinto uma dor incabível quando vejo um irmão sofrendo violência!
Sou preto, sou brasileiro, sou eu! Tenho orgulho da minha terra, das minhas raízes! Raízes caboclas, caiçaras, caipiras, negras!

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