Caminhando por essa cidade calorenta tive uma expansão de percepção muito bonita.
Percebi um aspecto muito interessante da existência, em sua concepção mais geral. Foi uma experiência radical de alteridade. Senti um devir-árvore e um devir-flor muito forte. Não entendo muito racionalmente esse conceito deleuziano, mas ele serve pra expressar o que talvez tenha experenciado hoje. Rolou uma conexão e uma gratidão muito alargada com/pelas plantas.
Percebi o quanto a simples existência de uma árvore ou de uma flor nos traz conforto pela sua sombra, alegria pela sua cor e textura, prazer pelo seus frutos... É como se as plantas nos tornassem mais humanos porque sua matéria se espiritualiza na nossa relação com elas. Quem já dormiu embaixo de uma frondosa mangueira num dia de sol sabe o quanto as folhas são muito boas em nos proteger do sol. É como se a folha-em-si se transmutasse em sombra e enviasse sua sombra pra nos abençoar. Entende?
Mas essa delícia que nos és dada cotidianamente pelas plantas não deve ser parte de alguma intencionalidade nem delas mesmo, nem de alguma força divina. A boniteza que entendi hoje é que as árvores e flores nos trazem alegria e conforto e alimento simplesmente por existirem, por "serem" "quem" "elas" "são". (tudo entre aspas pela dificuldade de operacionalizar com essas categorias ontológicas e existenciais em outras formas de vida)
Descobri, enfim, que queria ser como uma árvore espraiar minhas energias, ou bençãos, ou conforto, ou afetos ou coisas boas simplesmente por estar onde estou fazendo aquilo que gosto de fazer.
Deve ser isso que as pessoas chamam de divino. Ser bom simplesmente por ser o que se é e nada mais. Deus deve ser alguma coisa que talvez não tenha intencionalidade naquilo que é. É divino simplesmente porque está naquela forma. Nesse sentido, entendo que todos devemos ter um pouco de divindade (ou bom senso, como queira) e estar aberto para o mundo: disponível para receber e doar um pouco de si, sem qualquer pragmatismo. Ser divino por ser o que se é talvez seja a coisa mais linda que existe nesse pedaço de chão. Assim, as plantas são tão divinas quanto o próprio deus. Nisso concordo que existe uma centelha divina na alma de todos os seres viventes desse planeta.
Namastê