14 de dezembro de 2011

Jaya Jaya Mahadeva


Caminhando por essa cidade calorenta tive uma expansão de percepção muito bonita.
Percebi um aspecto muito interessante da existência, em sua concepção mais geral. Foi uma experiência radical de alteridade. Senti um devir-árvore e um devir-flor muito forte. Não entendo muito racionalmente esse conceito deleuziano, mas ele serve pra expressar o que talvez tenha experenciado hoje. Rolou uma conexão e uma gratidão muito alargada com/pelas plantas.

Percebi o quanto a simples existência de uma árvore ou de uma flor nos traz conforto pela sua sombra, alegria pela sua cor e textura, prazer pelo seus frutos... É como se as plantas nos tornassem mais humanos porque sua matéria se espiritualiza na nossa relação com elas. Quem já dormiu embaixo de uma frondosa mangueira num dia de sol sabe o quanto as folhas são muito boas em nos proteger do sol. É como se a folha-em-si se transmutasse em sombra e enviasse sua sombra pra nos abençoar. Entende?
Mas essa delícia que nos és dada cotidianamente pelas plantas não deve ser parte de alguma intencionalidade nem delas mesmo, nem de alguma força divina. A boniteza que entendi hoje é que as árvores e flores nos trazem alegria e conforto e alimento simplesmente por existirem, por "serem" "quem" "elas" "são". (tudo entre aspas pela dificuldade de operacionalizar com essas categorias ontológicas e existenciais em outras formas de vida)
Descobri, enfim, que queria ser como uma árvore espraiar minhas energias, ou bençãos, ou conforto, ou afetos ou coisas boas simplesmente por estar onde estou fazendo aquilo que gosto de fazer.

Deve ser isso que as pessoas chamam de divino. Ser bom simplesmente por ser o que se é e nada mais. Deus deve ser alguma coisa que talvez não tenha intencionalidade naquilo que é. É divino simplesmente porque está naquela forma. Nesse sentido, entendo que todos devemos ter um pouco de divindade (ou bom senso, como queira) e estar aberto para o mundo: disponível para receber e doar um pouco de si, sem qualquer pragmatismo. Ser divino por ser o que se é talvez seja a coisa mais linda que existe nesse pedaço de chão. Assim, as plantas são tão divinas quanto o próprio deus. Nisso concordo que existe uma centelha divina na alma de todos os seres viventes desse planeta.

Namastê

9 de dezembro de 2011

Para quem?

Ó, Fortuna, por que deixa-me tão inseguro?
Por que destrói tanto meus planos para mim e para a vida?
Por que me apresenta o caos quando peço a constança?

Tenho dons para ermitão, mas meus laços morais não me desatam a liberdade presa em meu peito.
Quero a liberdade do louco, mas com a sanidade do chefe de família. As contradições se impõem e se angustiam sobre minha cabeça.

Não! Não vejo nada além do presente! Queria ter o poder de manipular a vida, mas descubro-me tão ínfimo quanto uma folha no rio. Quando chegarei ao mar? Quando serei o mar? Quanto de mar existe em mim? Turbulentas água chegam no oceano e este não se agita. Minha alma faz parte do Universo e o Universo está em mim, mas estamos tão separados quanto a terra das estrelas.
Queria sentir o pó cósmico que pulsa em meu corpo, sentir a razão divina que vivifica meu espírito.

A sociedade me corrompe porque ela não obedece aos meus impulsos, ela constrange e não potencializa. Só quando acha necessário. Tecer as linhas de fuga é mais difícil quando não se tem ao certo para onde fugir.

Ó, Fortuna, por que nunca está a meu favor?
Por que quando me ilumina com seu apogeu não me dou conta?
Por que tão cruel e tão materna?
Por que ensinas pela pena?

Árduo é o caminho para escutar os pássaros e riachos.