Está calor, daqueles que ficam preso na garganta como uma espinha de peixe. Chego em casa, jogo os sapatos para o lado, alargo as calças e descarrego-me dos papéis sociais. Pronto estou só. Livre! E é tão bom tomar um gole de água gelada. Refrescante e solitária. Mato a sede de mim mesmo. Finalmente posso não falar, posso prestar atenção naquilo que gostaria de dizer realmente.
Essa solidão dá o prazer de tecer o meu eu, o meu corpo, escolher os meus devires e ser, completamente finalmente, silêncio. Não quero ser silenciado, quero escolher o silêncio.
A solidão me parece tão sedutora e não porque seja ela uma fuga, represente um desgosto ou porque carregue qualquer sentimento niilista das coisas. Prefiro pensar o estar solitário mais como uma preparação. Um aprendizado, talvez. A solidão é um deleite de lambuzar os lábios.
Não sei porque nesses tempos de individualismo temos que ser individualistas em conjunto.
É claro que é importante saber apreciar também o banquete, o compartilhar. É bom perceber a evidência do nosso eu-relacional. O rizoma é realmente muito bonito, apesar de não saber onde a teia apresenta-se no seu particular, o elementar sabe de sua irredutibilidade. Entre para o jogo do caleidoscópio. Mas não esqueça do colorido e dos perfumes múltiplos.

