As vezes a condição humana, me parece tão evidente. Fica-me tão claro o quanto o processo histórico se deixou levar e, lado a lado com a pervesidade, mascara repetidamente a exploração que está inclusa nisso tudo. As mãos humanas na construção dessa atrocidade ardilosamente desaparecem e ninguém sabe contra quem lutar, contra quem se indignar. Quando cortamos a cabeça dos reis para colocar o povo, a massa, a essência humana no lugar ficamos sem um inimigo concreto. Esse tal de sistema que nos oprime é uma ficção que serve agudamente para esconder o rosto de nossos carrascos. O que mais me entorpece é quando o próprio escravo, judeu, mulher, outsider, pobre, trabalhador, enfim... O que mais me enotrpece é quando o próprio humano concorda com a desumanidade. Talvez precisamos rever esse estatuto de humano, devo estar completamente louco por acreditar naquilo que mais ninguém acredita, por lutar por uma condição que todos nem reconhecem como existente.
E são nesses momentos de contemplação da desgraça humana - se é que se pode eticamente contemplar a monstruosidade - que me sinto impelido a acreditar na nulidade do meu discurso e tentar enxergar a validade do discurso do hegemônico. Se as pessoas realmente, inteiramente, "instintivamente" lutam por essa prática excludente é porque existe uma razão, uma lógica interna com que trabalham. Mas por que escolheram esse caminho e não o meu? O que me faz minoria? Quem legitima a maioria? Quem concorda com a maioria? E que maioria é essa que não se enxerga como próprio algoz? São tempos difíceis.
Não posso desistir de lutar, mas tudo me parece tão perdido, tão determinado, concluído que me perco. Perco-me nesse conflito entre ser o paladino da humanidade verdadeira, religiosamente impondo meus valores, e encarar o discurso hegemônico como condicionado por um processo histórico, político e econômico.
Mas não deixo de perceber a perversidade disso tudo. Perverso por se esconder atrás de uma verdade absoluta e iquestionável sem mostrar sua intrínsica exclusão. Temo por não poder falar, quero liberar meu desejo de verdade sem remorso. Mas não consigo!
Insisto em respeitar aqueles que me desrepeitam, aceitar aqueles que não me aceitam, tratar como humanos aqueles que me desumanizam.
Veja! Sou humano, mas outro humano! Tão diverso quanto a humanidade possa se configurar. Não apenas aceite-me, alargue seus parâmetros do permitido, validado, legitimado. Rompa, cotidianamente, com os seus valores. Questione-se!
Entenda enfim que vivemos num infinito hospício e que a loucura é o que faz de você racional. Não, não vivemos em sociedade. Isso tudo é uma farsa! Seja fiel ao outro!
Putz, se tivermos que guilhotinar alguém, que seja o indivíduo teórico, essa balela sobre a qual nos construímos!
Se tivesse um pedido seria esse! Não sei quais consequências desastrosas teria, mas, com certeza, se pudesse acabar com alguma coisa seria com o indivíduo: esse mesquinho fruto da modernidade!
E lá vou eu, paladino de uma religião humana. Não, não posso me aceitar como tal! Não quero agir como aqueles que critico. Vá! Tome esse pedaço de pensamento e construa o que quiser com ele. Seja livre para ser monstro! Seja livre para produzir as correntes que os prendem!
