28 de abril de 2010

A hora da ascensão

Oh mestre, fazei com que eu procure mais consolar
Do que ser consolado,
Compreender do que ser compreendido,
Amar do que ser amado,
Pois dando é que se recebe,
E perdoando é que se é perdoado.
Obrigado,
Jah!

Porque o caminho de tentar compreender é sempre solitário. Esse exercício de sair de si - como se isso fosse possível - para entender o mundo de dentro dos olhos de outro é um dos exercícios mais difíceis. Isso porque a nossa individualidade fica arriscada então. Tudo o que nós acreditamos como sendo certo é questionado nesse movimento. No fim, é perigoso e solitário esse salto.
Solitário como os loucos o são. Qual racionalidade aceitaria ser relativa? Não! Temos fé na nossa fé. Mas tentar entender a humanidade para além de nós mesmos é como sobrevoar o mundo, vendo-o desaperecer. Perder a unidade coerente de si. Claro, isso não sou capaz. Mas não é por isso que vou deixar de tentar. Em busca do impossível.
É solitário porque é incompreendido. É solitário porque nunca seremos mais o mesmo, o eu some. Me perco de mim na procura pelo outro.
Consolar, compreender, amar, doar, perdoar é solitário porque ninguém enxerga essa luta além de nós mesmos. E também o é porque é algo travado entre os conflitos internos do eu. 
E é solitário porque nunca se consegue atingir o objetivo, não há linha de chegada, não há o beijo da donzela apaixonada, não há recompensas. Um beco sem saída e sem volta.
O que existe é o fracasso dessa tentativa frustrada de início.
E por que continuar tentando? Não sei, não sei... talvez não consiga agir diferente. Talvez seja meu jeito de ser como sou. A praia, a cada braçada, ficando mais longe e o fôlego se acabando.

Meu fardo, minha solidão!

20 de abril de 2010

Sofrimento e erudição

O sofrimento, beibe, é algo digno e raro. Mas não é qualquer sofrimentozinho, não! O qual me refiro é carregado de um certo romantismo decadente moderno. Oras, se vai sofrer, sofra com qualidade intelectual. Isto é, seja erudito, porque dor de corno é muito clichê.

Exemplo: Angustie-se pela extrema incapacidade humana de relavitizar seu próprio eu, no sentido de obter a verdadeira, real, eterna percepção da realidade, da objetividade, da coisa em si.
Enfim, essas coisas de pessoas cultas, gente! 

Veja bem!

Chatterton, suicidou;
Kurt Cobain, suicidou;
Getúlio Vargas, suicidou;
Nietzsche, enloqueceu;
E eu não vou nada bem.
Não vou nada bem,
Chatterton, suicidou;
Cléopatra, suicidou;
Isócrates, suicidou;
Goya, enloqueceu;
E eu não vou nada nada bem
Não vou nada bem

18 de abril de 2010

Flowers and trees and chatice mesmo!


E eu sou do tempo em que houve o primeiro desenho animado colorido. Aliás sou do tempo em que os desenhos eram dos EUA e não do Japão - esse, especializado em séries de robôs, ETs, monstros gigantes e coisa e tal... Enquanto isso, do oooutro lado do Pacífico, a potência norte-americana havia ganho a guerra ideológica com os vermeio e festava azendo desenhos tão lindos quanto os burgueses ganhando dinheiro no neo-liberalismo. Sim, Tio Patinhas que o diga, nadaaaando em dinheiro acumulado com seu próprio esforço e mérito. Sílvio Santos está aí pra nos comprovar! E num é?

E como esse povinho meio-intelectual e meio-de-esquerda tem a pachorra de estragar, criticar e profanar tudo. É claro que sempre encontram lugar para a análise crítica do conteúdo expresso e até mesmo daquelas entrelinhas do desenho. Tudo povinho irritante.
Esse é o primeiro desenho animado colorido que alegrou minhas manhãs. Agora, porém, embasa meu sociologuês de boteco ao ressaltar o imaginário heterocêntrico, machista, racista que a obra reproduz. E o clímax é quando insisto em discussar sobre como ele reitera uma daquelas noções fundamentais para o pensamento ocidental moderno: a clara separação entre naturezaXcultura, primitivoXcivilizado, sentimentalXracional... e por aí vão hooooras de blablabla intelectualóide e acadêmico!

Haaaaja saco pra esse meio universitário!

12 de abril de 2010

Cadeira na janela

Porque no limite, desconsiderando vários contextos, quero ser um Renato Teixeira, Manoel de Barros, um Alberto Caeiro. É...

                     Mas a minha tristeza é sossego
                     Porque é natural e justa
                     E é o que deve estar na alma
                     Quando já pensa que existe
                     E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

                     Como um ruído de chocalhos
                     Para além da curva da estrada,
                     Os meus pensamentos são contentes.
                     Só tenho pena de saber que eles são contentes,
                     Porque, se o não soubesse,
                     Em vez de serem contentes e tristes,
                     Seriam alegres e contentes.

                     Pensar incomoda como andar à chuva
                     Quando o vento cresce e parece que chove mais.

                     Não tenho ambições nem desejos
                     Ser poeta não é uma ambição minha
                     É a minha maneira de estar sozinho.

                     E se desejo às vezes
                     Por imaginar, ser cordeirinho
                     (Ou ser o rebanho todo
                     Para andar espalhado por toda a encosta
                     A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

                     É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
                     Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
                     E corre um silêncio pela erva fora.

                     Quando me sento a escrever versos
                     Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
                     Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
                     Sinto um cajado nas mãos
                     E vejo um recorte de mim
                     No cimo dum outeiro,
                     Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
                     Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
                     E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
                     E quer fingir que compreende.

                     Saúdo todos os que me lerem,
                     Tirando-lhes o chapéu largo
                     Quando me vêem à minha porta
                     Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
                     Saúdo-os e desejo-lhes sol,
                     E chuva, quando a chuva é precisa,
                     E que as suas casas tenham
                     Ao pé duma janela aberta
                     Uma cadeira predileta
                     Onde se sentem, lendo os meus versos.
                     E ao lerem os meus versos pensem
                     Que sou qualquer cousa natural —
                     Por exemplo, a árvore antiga
                     À sombra da qual quando crianças
                     Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
                     E limpavam o suor da testa quente
                     Com a manga do bibe riscado.

7 de abril de 2010

Talvez

As vezes um desânimo generalizado cai sobre minha cabeça. Ou melhor, sai da minha cabeça. Daí fico bem cheio de tudo. Nos dois sentidos: Cheio de coisas pra pensar, preocupações pra angustiar, sentimentos pra esquecer, idéias pra não gostar; e cheio de tudo isso que está posto aí, cansado mesmo. Algo como uma desesperança na humanidade, nas pessoas, em mim. Canso de ser eu como eu sou. Canso de pensar do jeito que sempre pensei, de sentir, de agir, de interagir, de ver como sempre vi.

A monotonia do eu me cansa.

E olha que nunca tive um grande sofrimento, nunca passei fome ou alguma necessidade desesperadora. Não, não... É essa mediocridade bem característica que me fode, talvez. Mediocridade de alguém que sempre teve a vida mansa, previsível, acertada, domesticada...

De certo é uma apatia, uma não-vontade, bem blazê.

Talvez seja só esse sol frio que não me esquenta.
                                                Talvez...

                                       É...

Não sei...

                             ...........

Foda-se



When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle, oh it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh joyfully, oh playfully watching me
But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical, oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh clinical, oh intellectual, cynical

There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am

Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal, oh fanatical, criminal
Oh won't you sign up your name
We'd like to feel you're
Acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable.

4 de abril de 2010

Você fede!

O que me incomoda, enfim, é todo esse egoísmo reiterado. Essa noção do esforço individual, a ética protestante, a meritocracia. A dimensão do eu se exacerbando sobre as outras.
Mais do que isso, é vestir a camisa do individualismo e lutar por ele, sem perceber os prejuízos disso. Como se fosse inocente essa luta. Crescer na vida por merecimento próprio é o que move os ignorantes, não vêem as relações que teceram, nem sobre que cabeças pisaram.
Tenho o meu emprego, minha casa, minhas coisas, minhas pessoas, meus sentimentos. Tudo ao meu favor, meus troféus. A vida vai se tornando uma recompensa para os mais fortes.

Enquanto o outro (e o coletivo) não for realmente reconhecido como participante da trajetória individual de todos, acredito que não será superada essa exploração, dominação essa subordinação do homem. Mesmo que as relações macro de poder forem rompidas, não seremos igualmente livres enquanto perdurar esses micro poderes. É montar sobre um cavalo, levantar a bendeira do progresso, cobrir os olhos com a venda do merecimento individual e não perceber sobre quais cabeças está cavalgando.
Mas ninguém se diz a encarnação do mal, isso tudo é sempre em favor do coletivo! Lutamos para que todos sejam egoístas como nós e possam progredir na vida também! Por que não?

Mas por que é difícil perceber que para você ter sua casa confortável, alguns têm que morar na sarjeta; pra você ter um emprego de gerência, alguns tem que ser explorados; pra você comer sua barrinha de cereal, alguns tem que comer farinha e água? Pra você desfrutar dessa sociedade de consumo, beibe, alguns tem que apenas sonhar com ela.
Não há lugar para todos aqui e você sapateia cegamente de felicidade por isso.
Vamos! Vamos tomar o sangue dos fracos em comemoração à nossa vitória! Vamos nos alegrar porque nós nascemos assim, agradecer a Deus por existir aqueles que dão o couro para os nossos sofás! Sim, nós lutamos e merecemos!


Você fede!