Queria confessar que sou uma farsa. Entre todas as coisas que digo fazer, pensar, sentir e não faço, penso, sinto, existem muitas lacunas que me incomodam e outras nem tanto.
Por exemplo: acredito na necessidade de uma reestruturação completa dessa sociedade. Mas a distância entre acreditar e lutar por algo é grande e desagradável. Mais que uma farsa, no fim, eu devo ser um covarde com um quê de hipocrisia. Sem coragem pra realmente agir como queria.
Nunca teria a atitude heróica dos companheiros que foram torturados pela ditadura. Nunca! Seria bem mais egoísta. Meu bem-estar, nesse contexto, estaria acima do coletivo. Teria delatado tudo o que me perguntassem. É, fui educado pra ser um cuzão, talvez. Sob a ética protestante e tal. E o engraçado que aponto os defeitos e culpo sempre um ente exterior a mim. Se acreditam é porque são tolos.
Além de que sempre tomo como ponto de partida da minha prática o próximo. E com a petulância de dizer que faço isso porque acredito na alteridade. É bem a cara desses humanistas mesmo. Não confiem em mim. Não caiam nessa besteira. Além da covardia, também sou preguiçoso. Tenho preguiça de me relacionar comigo mesmo. É... Não quero me enxergar. Muito trabalhoso. A introspecção não me vale a pena. E isso faz com que nunca seja sincero nem comigo mesmo, o que dirá com você.
Pior espécie de gente: farsante, covarde, egoísta, cuzão, hipócrita, arrogante, petulante, falso-humanista, preguiçoso, não sincero.
Não espero piedade, ou talvez espero sim. Só que com esse discurso pretensamente humilde. Espero dizendo não esperar que é pra aumentar a credibilidade.

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